Era uma vez uma camiseta que falava e protestava

Atualizado: Fev 10

Uma roupa toda vermelha dá a entender que essa é a cor favorita de quem veste. Uma camiseta do The Strokes transmite que rock é o estilo musical preferido de quem a usa. Uma blusa de um meme em alta, revela  que a pessoa está por dentro dos paranauês da internet. Camisetas com estampas do símbolo de vênus, Frida Kahlo, Girl Power e semelhantes, mostram o engajamento de mulheres com o movimento feminista. O mesmo vale para quem usa camisetas de times. Dependendo do look, há quem diga, através de sua roupa, que não se importa nada com a moda. Esse é o poder de uma camiseta protesto.


Isso tudo porque o ato de se vestir, por si só, é uma forma de expressão. Pela vestimenta, dizemos de forma não-verbal nossos desejos, formas de pensar, de ser e de ver o mundo. E a camiseta, uma peça democrática, usada por diversas classes sociais e tribos, tem sido uma forte aliada nessa caminhada de vestir e revelar coisas a nosso respeito ou defender nossas ideologias. Por isso, contamos aqui a história desse item símbolo de manifestação.


Eu nasci assim (rebelde) 

Em sua modelagem a camiseta nunca passou por transformações. A única alteração sofrida foi no modo de ser usada. A princípio a peça era uma roupa de baixo, servindo como segunda pele para poupar a camisa de desgastes causados pela transpiração.


Foi mesmo na década de 50 que a T-shirt - nome figurativo, por conta de sua forma da letra “T” do alfabeto - se tornou uma verdadeira roupa. E ela já veio ao mundo como um item de rebeldia. Isso porque os atores Marlon Brando e James Dean (símbolos de rebeldia da época) a popularizaram entre os jovens que também queriam, através de seus looks, representar sua inconformidade com a sociedade. Nesse período a principal composição da peça era: camiseta + jaqueta de couro + calça jeans.



A imagem contem duas fotos em preto e branco de dois homens usando a camiseta branca, sendo eles Marlon Brando e James Dean. Na primeira foto, à esquerda, Marlon Brando está encostando em uma parede e na direita James Dena está sentado em uma cadeira segurando um cigarro com a mão direita.
À esquerda Marlon Brando e James Dean à direita.


Eu cresci assim (rebelde)

Já crescidinha, na década de 1960, a camiseta se transformou em um símbolo mais explícito de manifestação no corpo. O movimento hippie foi um dos principais responsáveis por torná-la um meio de divulgação de mensagens nas estampas, sendo a principal entre eles o "Paz e amor" impresso ou tingido no peito, além de outras frases que transmitiam ideias dessa comunidade, como de questões ambientais, emancipação sexual e prática de nudismo.


Foram também os hippies que tornaram a camiseta uma ferramenta para expressar a adoração por ídolos. Durante o festival Woodstock, em 1969, enquanto cantavam pela paz por três dias, foram vistas pela primeira vez T-shirts com estampas de bandas, principalmente dos Beatles.


Outros movimentos não ficaram para trás ao proclamar suas mensagens, como os punks, com suas camisetas de "Fuck You" e o Hip-Hop, com suas camisetas largas e longas, ilustradas com personalidades da cultura negra. A partir de então a camiseta deixa de ser só uma peça branca, ganhando cor, mensagens, estampas, grafismos, buttons, rasgos propositais, tachas, alfinetes e tudo que tem direito!



A foto contém três camisetas diferentes, dos movimentos hippie, punk e hip hop. Na primeira camiseta, há uma estampa de peace and love woodstock, representando os hippies e o festival de 1969. No centro da foto, a estilista Vivienne Westwood usa uma camiseta escrito 'Destroy' e com o símbolo do nazismo. Na última foto, uma mulher negra usa uma camiseta larga e longa escrita 'too black', representando o movimento do hip hop.
Na foto, três modelos de camisetas de culturas diferentes: à esquerda a camiseta peace and love em homenagem ao Woodstock de 1969. No centro, a estilista Vivienne Westwood, símbolo do movimento punk, usando sua criação "Destroy" rementendo ao nazismo, em 1977. À direita, a estampa 'too black', do movimento hip hop.


Eu sou mesmo assim (rebelde)

O manifesto nas camisetas com slogans estampados não foi moda passageira e tampouco ficou somente na mão de integrantes de movimentos jovens. Sua forma de expressão e protesto foi tão brilhante que, já nos anos 90, caiu no gosto de estilistas do Brasil e do mundo.


Fosse para se contrapor a um acontecimento, incentivar uma causa social, se posicionar politicamente, os casos de criadores de moda usando da camiseta protesto são vários:


  • Considerada a precursora da camiseta-slogan entre estilistas, Katharine Hamnett teve como marca registrada de seu trabalho as blusas oversized com mensagens políticas em letras grandes nos anos 80. As mensagens eram: "Proíbam a guerra nuclear agora" "Parem com a chuva ácida", "58% [da população] não quer Pershing (mísseis lançados do Reino Unido na época)". Katharine lutou até mesmo contra injustiças na moda com a estampa “Sem mais vítimas da moda” e também contra situações desumanas na África e pela sustentabilidade ambiental.


  • Vivienne Westwood sempre fez questão de fazer protestos em seus desfiles, e a camiseta também já foi sua aliada nessa empreitada. Em sua luta contra a aprovação do governo britânico à lei antiterrorismo, ela estampou na peça a frase "Não sou terrorista, por favor, não me prenda".


  • Durante o mandato presidencial de George W. Bush, a marca Vide Bula colocou o rosto do presidente com um nariz de palhaço na camiseta protesto e pichou outras com a frase "Kennedy para presidente", manifestando oposição ao governo.





  • Um ano antes da aparição de Célio na SPFW, o estilista Ronaldo Fraga apareceu no final de seu desfile com uma camiseta protesto que criticava o governo Temer, dizendo: Mr. Presidente, se você não pensa no Brasil, pense nos netos do Michelzinho". A estampa ainda continha uma pomba morta e manchas de sangue na parte da frente e, na parte de trás, o desenho de um tiro, também com sangue em volta.



Saindo um pouco da curva de estilistas usando da camiseta protesto, temos também grandes casos de ONGs e movimentos que as usam para passar sua mensagem central. A Fundação Black Lives Matter, por exemplo, vende camisetas escritas que vidas negras importam desde 2013, quando foi fundada em resposta a absolvição do assassinato de Trayvon Martin.


Este ano, após a morte de George Floyd em maio, vimos um boom da camiseta durante os protestos nas ruas e em eventos esportivos, como na volta da temporada da NBA, em que os jogadores do Los Angeles Lakers entraram com a camiseta de Black Lives Matter e, durante o hino nacional dos Estados Unidos, se ajoelharam em um protesto pacífico e silencioso.





Em todos esses casos, a camiseta protesto entra na história dos acontecimentos em sociedade, evidenciando posicionamentos políticos, culturais, antirracistas, preferência sexual e afins.



Vou ser sempre assim (rebelde)

Hoje é impossível reverter esse papel de comunicadora da camiseta, ainda mais quando falamos em T-shirts que protestam pelo peito. Quando passamos por uma mulher na rua com a estampa "Lute como uma garota", o manifesto está feito, além de comunicar sobre a identidade, gostos e ideais de quem está a carregando. 


O mesmo vale para estampas de "reLOVEution", "love is love", "feminist", "EleNão” entre outras. Elas despertam a atenção do outro e provocam sentidos, seja o desprezo ou a identificação. No final das contas, estas peças cumprem o papel fundamental de serem notadas e levarem reflexão. E a história da camiseta protesto jamais terá um fim, pois ela estará sempre a postos para acompanhar mudanças sociais.


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